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Especialistas criam estratégias mais flexíveis e investem em
mudanças na casa e nas escolas para vencer a obesidade
Lena Castellón, Lia Bock e Mônica Tarantino
Pergunte a qualquer pessoa o que fazer para controlar o peso.
Recomendações como diminuir o açúcar e evitar frituras estão
entre as respostas mais populares. São tão fáceis de propagar
que possivelmente todo mundo já as repetiu, ao menos uma vez,
para um amigo que lamenta a silhueta arredondada. Mas a verdade
é que não é tão simples adotar uma alimentação mais saudável. Se
assim fosse, a obesidade não se expandiria tanto. Sua voracidade
é tamanha que a Organização Mundial de Saúde a configura como
epidemia. Hoje, o total de obesos no planeta é calculado em 1,4
bilhão de pessoas. Dentre elas, 17 milhões estão no Brasil.
O fato de a doença – caracterizada pelo Índice de Massa Corporal
superior a 30 (para calcular, divida seu peso em quilos pela sua
altura em metros ao quadrado) – se alastrar tem levado os
especialistas a repensar as estratégias de luta. Muitos estão
concentrando seus esforços na tentativa de compreender por que,
afinal, é tão difícil modificar os costumes e adotar uma
alimentação mais correta. A solução dessa charada seria uma
vitória importantíssima, já que os maus hábitos alimentares
respondem por 70% dos casos de obesidade. Felizmente, já estão
surgindo pistas para decifrar o enigma. Algumas estão em uma
pesquisa que acaba de ser realizada pelas nutricionistas Juliana
Ribeiro de Carvalho e Márcia Daskal, da Recomendo Assessoria e
Consultoria em Alimentação, de São Paulo. Há sete anos
fornecendo orientação alimentar em academias e no consultório,
as duas queriam aumentar a adesão dos clientes aos programas de
reeducação alimentar. Para isso, precisavam saber os motivos que
levam boa parte das pessoas a abandonar dietas ou não alterar
costumes. Para descobrir o que procuravam, fizeram uma revisão
dos estudos mais recentes sobre mudança de comportamento e
obesidade.
Uma das principais constatações é a de que, em geral, as pessoas
têm dificuldade de entender o que é recomendado. Muita gente não
sabe, por exemplo, o que quer dizer, na prática, “tirar ou
diminuir a gordura” do cardápio. Ou seja, falta uma tradução
para o cotidiano das orientações dadas pelos especialistas. No
caso da gordura, a atitude correta é reduzir a quantidade de
óleo no preparo da comida e no tempero da salada. Uma sugestão é
usar molho de iogurte desnatado com limão. Outra dica é refogar
verduras com água, alho e sal. A mesma desorientação foi
observada em relação a afirmações como “coma mais frutas e
verduras”. Quanto se deve ingerir de cada uma? De que forma?
Outra descoberta é que ninguém aguenta mais ouvir frases do
tipo: não coma frituras, não exagere nos doces. As pesquisas
internacionais apontam que esse é um caminho equivocado. “Não se
deve transmitir informações na negativa. O certo é sugerir
opções mais saudáveis”, explica Juliana. De tanto ouvir não, o
indivíduo se sente atraído justamente pelo que é proibido e
acaba caindo de boca no prato errado.
Informações como essas são preciosas para os especialistas. A
partir delas, é possível redesenhar a forma de lidar com as
esperanças e limitações de quem deseja emagrecer. E, para
alegria dos mais gordinhos, já existem modificações nas
estratégias de tratamento. No consultório das nutricionistas
Márcia e Juliana, as conclusões da pesquisa, combinadas à
experiência clínica, ajudaram a delinear níveis de disposição
para mudar de hábito. Essa é a primeira medida levada em
consideração pelas especia listas. Se o paciente chegou até lá
forçado por parentes, por exemplo, elas procuram um ponto
vulnerável no comportamento dele para iniciar o processo de
transformação. Na primeira consulta, o indivíduo pode receber
apenas a recomendação de tomar menos café. “Não dá para passar
uma dieta para alguém nessas condições”, conta Márcia.
Outra atitude que começa a se tornar comum é adequar a dieta às
preferências de cada um. A nutricionista Márcia se recorda do
caso de uma paciente que bebia pouca água. Em vez de
simplesmente receitar mais ingestão do líquido, buscou-se outro
jeito de fazê-la mudar o hábito. “Ela não gostava da falta de
sabor. A solução foi diluir um pouco de suco de fruta”, diz.
Esse modelo de atendimento também é adotado pela nutricionista
paulista Mirtes Stancanelli. “O emagrecimento deve ser um
processo natural, sem sofrimento, mas com disciplina e
persistência”, comenta. A abordagem conquista muito mais adesão
do que as dietas prêt-à-porter de consultórios nos quais o
profissional puxa da gaveta o cardápio pronto, preenche o limite
calórico e agradece a visita. Pode ser a saída para pessoas como
o editor de site Mário Matsukura Júnior, 23 anos, de São Paulo.
Ele pesa 82 quilos, cultiva uma barriguinha e não abre mão das
sobremesas. Para perder quatro quilos, quer diminuir as idas a
restaurantes – em média, vai quatro vezes por semana. “Um dos
meus maiores prazeres é comer bem”, admite. Matsukura também
tenta se exercitar, mas logo desiste.
Olhômetro – Há outros exemplos de programas de emagrecimento
flexíveis. Entidade tradicional de combate aos quilos extras, o
Vigilantes do Peso, que já trabalhou com um controle mais rígido
da ingestão de frutas, tornou-se mais maleável. “Agora, pode
tudo, contanto que se controlem as porções”, esclarece Cleide
Guimarães, do Vigilantes de São Paulo. Para simplificar a vida
das pessoas, a entidade usa um sistema inusitado para impedir
exageros: o “olhômetro”. Uma batata média, por exemplo, deve ter
o tamanho da mão fechada. A porção adequada de filé de frango
corresponde à palma (sem contar os dedos). A de peixe, a mão
inteira.
O Vigilantes adota também um sistema de cores para identificar
os alimentos. A vermelha indica itens que devem ser limitados
durante a semana, como cerveja, chocolate e bolo. O amarelo
sinaliza que se deve consumir com moderação produtos do
dia-a-dia (caso de arroz e feijão). E os verdes são aqueles
liberados: legumes, frutas, verduras. Esse método deu certo para
a estudante paulista Vanessa Negrão, 21 anos, 68 quilos. Ela
emagreceu 28 quilos e meio em um ano. “Já tomei remédio, fiz
dietas loucas, mas voltava a engordar. Há três anos entrei para
os Vigilantes e aprendi a diminuir as gorduras”, conta.
Também do lado de fora dos consultórios há iniciativas para
melhorar a qualidade da alimentação sem radicalismos,
respeitando o prazer de comer. O restaurante Biosfera, aberto há
dois anos na capital paulista, por exemplo, é especializado em
pratos balanceados – em um mês, vende seis mil refeições. “Nosso
cardápio tem baixos teores de gordura”, afirma Roberto Someck,
um dos proprietários. A casa oferece ainda quatro opções que
contam com o selo da Fundação do Coração (Funcor), que atesta o
caráter saudável dos pratos. Uma das frequentadoras mais
assíduas é a atriz Virgínia Nowick. “Gosto de comida saudável.
Sinto mais energia e disposição”, afirma.
No esforço para fazer com que as pessoas realmente transformem
seus hábitos, os médicos também começam a perceber que não
adianta mudar apenas a dieta. É preciso haver uma modificação do
cotidiano e do ambiente em que se vive. Ou seja, mudar os
costumes em casa, na escola e até no trabalho. Sem isso, não há
programa de reeducação que funcione. “O controle da epidemia
valoriza cada vez mais as intervenções no estilo de vida. Na
prática, isso quer dizer criar medidas para que o ambiente
favoreça a dieta e a atividade física”, diz Walmir Coutinho,
endocrinologista do Rio e coordenador da Força Tarefa
Latino-Americana Contra Obesidade.
Ambiente – Tanto é verdade que essa tese ganha força que já
estão sendo identificados os fatores de risco que fazem parte do
ambiente do obeso. O psiquiatra Artur Kaufman, do Projeto de
Atendimento ao Obeso do Hospital das Clínicas de São Paulo (HC/SP),
aponta a existência do parceiro, da casa, do amigo, do trabalho
“engordativos”. São pessoas ou circunstâncias que estimulam o
indivíduo a engordar. É o marido que presenteia com bombons a
esposa que acaba de perder um quilinho, o amigo que convida o
outro para uma bela picanha mesmo sabendo de sua luta contra a
balança, a cantina da empresa que só oferece pratos calóricos…
É preciso ficar atento contra esse tipo de armadilha. Por isso,
a professora de gastronomia Rita Corsi, de São Paulo, sugere que
toda a família seja envolvida na mudança alimentar. “Se há uma
criança gordinha em casa, por exemplo, é essencial envolver os
pais no controle de peso”, completa a nutricionista Ana Maria
Lottenberg, do HC/SP. Eles são os modelos dos filhos e também
devem adotar regras de vida saudável. A família Zaidan, de São
Paulo, segue essa lógica para evitar problemas de peso. O
engenheiro Marcelo, 39 anos, e a dona-de-casa Ana Maria, 37,
conseguiram fazer com que seus filhos Felipe, dez anos, e
Eduardo, sete, encham o prato de salada, prefiram alimentos
assados e tomem suco natural. O segredo de Ana Maria é servir
primeiro a salada. “Como eles estão com fome, é mais fácil
aceitar o alimento”, diz. Além de cuidar do cardápio, os pais
fazem ginástica e os meninos, natação. Mas como ninguém é de
ferro, nos finais de semana a família se delicia com
refrigerante, churrasco e outras guloseimas politicamente
incorretas.
A escola, segundo Coutinho, é mais um ambiente que deve servir
de exemplo para a criança. Poderia mostrar à garotada que é
necessário cuidar desde cedo da ali mentação. O ideal seria que
as cantinas tivessem menos alimentos do tipo salgadinho e
chocolate e oferecessem mais pães integrais e sucos naturais,
entre outras coisas. A boa notícia é que alguns estabelecimentos
já estão nessa trilha. Em janeiro, as refeições do colégio Dante
Alighieri, de São Paulo, por exemplo, ganharam o selo do Funcor.
“O objetivo é começar cedo a prevenção de problemas cardíacos e
outras doenças ligadas à alimentação”, explica Martha Paschoa,
nutricionista do colégio. Há mais escolas laureadas com o selo.
Em Brasília, há outra iniciativa para alterar o ambiente sempre
tentador das cantinas de escola. Um programa da Universidade de
Brasília faz sucesso ao envolver os professores da rede pública
nessa batalha e investir em linguagem acessível aos pequenos. O
projeto consiste em avaliar o peso de alunos do ensino
fundamental e ensiná-los a comer direito por meio de palestras
animadas com brinquedos como quebra-cabeça e dominó. Os
especialistas orientam os professores para levar o trabalho
adiante durante o ano, com ajuda de atividades como gincanas. “A
escola é o melhor local para promover a alimentação saudável. Os
pais também participam e o filho transmite em casa o que
aprendeu”, diz Patrícia Martins, uma das responsáveis pelo
projeto. De acordo com a nutricionista, é nessa etapa da vida
que os hábitos são formados. “Uma criança obesa tem 70% de
chances de continuar nessa situação quando chegar à fase
adulta”, diz. Até agora, 170 escolas aderiram ao programa.
Além da casa e da escola, o local de trabalho também está na
mira. É compreensível, já que se passa boa parte do tempo nesse
ambiente, muitas vezes recorrendo aos serviços de entrega de
refeições rápidas, devoradas em situações inadequadas (entre um
telefonema e outro, por exemplo). Mas muitas empresas já
contratam os serviços de nutricionistas para montar o
restaurante dos empregados. O melhor seria que também
organizassem palestras para ensinar os funcionários a fazer as
escolhas certas e a exigir mais qualidade.
Há outro fator que chama a atenção dos especialistas devido a
sua importância no combate à obesidade: o emocional. Cada vez
mais, percebe-se que não adianta resistir às tentações e malhar
se há dificuldades psicológicas por baixo do problema. Um
exemplo é o paciente que perdeu peso mas fica inseguro com o
novo corpo. Outro são os que comem para aliviar angústias.
Nesses casos, há boas chances de o peso voltar a subir. “Não
adianta mudar por fora sem transformar a estrutura interna”, diz
o psiquiatra Kaufman. A batalha, como se vê, é complexa e vai
além de trocar o bolo por uma fruta. Mas o maior conhecimento
dos obstáculos aumenta a possibilidade de vitória.
Texto retirado da Revista Istoé
12/04/2002
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